vai embora, nuvem

O encontro marcado

Fico lendo na biblioteca — mentiu ele; na verdade, ficava pelos corredores, à toa, se escondendo dos fiscais.

Lendo o quê?

Nada — confessou. — Tudo que tem lá, que ainda não li, é proibido aos alunos.

O diretor se espantou. — Como proibido? Tanto livro bom! Os clássicos...

Os clássicos podem ser bons, mas não agora. A gente lê agora, depois não lê mais, não adianta nada. São bons para a gente ler depois de velho.

Tem Alencar, Coelho Neto, Machado...

Machado o senhor proibiu.

Eu? Proibi Machado?

Proibiu Machado, Eça de Queiroz, os franceses quase todos. Flaubert, Balzac... — enumerou, farejando simpatia.

Você sabe ler francês?

Mais ou menos — mentiu; só lia traduções.

O diretor voltava ao tom familiar, conselheiral, andando de um lado para outro. — Tem Euclides da Cunha...

Já li.

Já leu? Os sertões?

Só "O homem" — admitiu ele. — "A terra" é muito chato, só tem descrição...

Não diga isso, meu filho, não diga isso — murmurava o padre, sem ênfase, já pensando em outra coisa. — Tem Rui Barbosa... Você não gosta de Rui?

Não.

Por quê?

Acho que eles exageram muito a importância de Rui Barbosa, na falta de outro.

Quando deixou o gabinete do diretor, a aula de História Universal já havia terminado. Encontrou os colegas no corredor e todos o cercaram — o próprio Mauro, esquecido da briga, queria saber o que acontecera. Para eles, Eduardo trazia uma surpresa. Não só não fora expulso, nem sequer suspenso, como obtivera ordem de ler os livros proibidos. E ante o pasmo dos colegas, saiu comentando, displicente. — É um camaradão, o monsenhor.

Nem sempre o que vem de antes vem para nos derrotar. O corpo parece que traz, na memória dele, as chaves para um estalo qualquer contra essa lei mais constante e diária, que é a mortificação. O mais impressionante é que isso não pode ser calculado nem resgatado por mera vontade. Conta mais, nestes casos, a presença de alguém que nos ajude a soprar, casualmente, o braseiro inconsciente da esperança.

PASSOS, José Luiz. O sonâmbulo amador, p. 101

As brasas

- Você deve ter passado por uma quantidade de experiências. Viveu andando pelo mundo. Nessas condições, as lembranças se esvaem depressa.

- Não - diz Konrad. - O mundo não significa nada. Jamais nos esquecemos dos fatos importantes. Só me dei conta disso mais tarde, à medida que me aproximava da velhice. Mas os fatos marginais não existem, desaparecem como sonhos.

A mão esquerda — O ano do centenário do escritor Lúcio Cardoso, 2012, viu três grandes publicações em homenagem ao artista mineiro: a edição crítica de sua Poesia completa, o volume Contos da ilha e do continente, e a versão integral de seus Diários. Uma excelente publicação acadêmica, no entanto, passou um pouco batida. Em Lúcio Cardoso em corpo e escrita, a pesquisadora Beatriz Damasceno analisa a obra do escritor a partir dos bilhetes e exercícios fonoaudiológicos (!) feitos pelo escritor após o AVC que sofreu em 1962 e interrompeu sua escrita, como demonstra essa reportagem de Homero Homem para a revista Manchete de 6 de novembro de 1965.

Alta resolução “Falou” — Reportagem de Narceu de Almeida Filho para a revista Manchete de 22 de março de 1980 sobre a reclusão de J. D. Salinger, autor do emblemático romance O apanhador no campo de centeio. Na matéria, Narceu explana as curiosas condições impostas por Salinger para a tradução brasileira da obra, lançada pela Editora do Autor, fundada pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino e Walter Acosta.

“Falou” — Reportagem de Narceu de Almeida Filho para a revista Manchete de 22 de março de 1980 sobre a reclusão de J. D. Salinger, autor do emblemático romance O apanhador no campo de centeio. Na matéria, Narceu explana as curiosas condições impostas por Salinger para a tradução brasileira da obra, lançada pela Editora do Autor, fundada pelos escritores Rubem Braga, Fernando Sabino e Walter Acosta.

O maravilhoso mundo de Marlboro — Amostra de rótulos de cigarros da Coleção Brito Alves, depositada no Instituto Joaquim Nabuco. São mais de 1.200 itens, incluindo os das incríveis marcas: Meu bem, estou cortado ahí?, Lúcifer, Estátua de Carne, Esmagadellas Especiaes, Xixi, Superior Tabaco do Olho do C., Cigarros dos Pirus de Casaca e Beijos de Mariquinhas.

Síndrome de Stendhal

Julien atingiu um tal grau de perfeição nesse gênero de eloquência — que substituiu a rapidez de ação do Império — que acabou por enfadar-se ele mesmo com o som de suas palavras. (STENDHAL. O vermelho e o negro, Livro primeiro, XXII, “Maneiras de agir em 1830”.)

Frase essa que, para mim, resume toda a escrita do autor francês: sua frieza narrativa eclipsa qualquer possível identificação ou reação do leitor relativamente à obra, muito ao contrário de Balzac, que a provoca até excessivamente. Que realismo é esse que, de tão perfeito, não passa verossimilhança ou seja, que não transparece imperfeição?