No inverno, sem meias
Aracy sentiu que tinha estragado tudo quando Noel a convidou para uma cerveja marca Cascatinha na Taberna da Glória. As palavras que ele empregou para elogiar sua voz deixaram transparecer a Aracy o fracasso de sua primeira apresentação “séria”, justamente aquela que para ela poderia ser o primeiro passo para uma carreira que a levasse para longe dos shows de graça em festinhas, no candomblé da rua Borja Reis, na escola de samba Somos de Pouco Falar, no coro de igreja protestante no Méier.
Minutos antes da primeira cerveja, Aracy ensaiara uma marcha na Rádio Educadora do Brasil. Estavam em 1933, e, para consolar o medo do fracasso de que padecia aquela que se tornaria a maior intérprete de seus sambas, Noel presenteou-a. Com um porre. Na Taberna da Glória, entre seus pares: os malandros Saturnino, Brancura, Zeca Meia-Noite, entre outros.
Nesse mesmo ano foi composto um dos maiores sucessos de Noel Rosa, “Três apitos”, gravado pela primeira vez 18 anos depois por Aracy de Almeida, em que ele narra o aborrecimento de um namorado ignorado.
Quando se exibe com seu carro em frente à fábrica, onde vai buscá-la após o expediente, ela prefere não ouvir a buzina. Ela também o despreza, está zangada, faz pouco caso dele; prefere aguentar a amolação de um gerente que lhe dá ordens a olhá-lo diretamente nos olhos.
Noel só insiste porque sabe que essa indiferença não é verdadeira: ela está tão incomodada com o rompimento que se martiriza indo trabalhar sem meias e agasalho, no inverno. Está desnorteada, e nem os três apitos que assinalam o fim do expediente parecem colocá-la no prumo de seus sentimentos.
A canção foi feita inspirada em uma namorada do compositor, Josefina, a Fina. Noel inicialmente pensava que sua amada trabalhava em uma fábrica de tecidos — como diz a letra —, mas Fina era funcionária em uma fábrica de botões.
Ele decidiu mentir; só assim seria possível chegar na rima “Mas você não sabe/ Que enquanto você faz pano/ Faço junto ao piano/ Esses versos pra você”.
No entanto, também seria possível se ele dissesse a verdade sabida e consabida: “Mas você não sabe/ Que enquanto você faz botão/ Faço junto ao violão/ Esses versos pra você”.
Noel gratificou Aracy de Almeida com um alegre porre por ter cantado tão bem em sua estreia, e Fina com versos sinceros de coração, mas carentes de realidade, por ter dificultado a realização de seu amor, que não sabemos como acabou ou mesmo se realmente começou.

Bem agasalhado com seu terno de flanela, no entanto, ele sempre esteve.
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