Como era gostoso o nosso cinema
Embalos alucinantes (1978) é uma grande porcaria. Apenas o protagonista rende umas tímidas risadas de vez em nunca. Nuno Leal Maia, ex-homem de Itu, ator de Malhação e comedor profissional interpreta a ele mesmo novamente – malandro profissional, vagabundo de nascença em busca de dinheiro fácil e mulheres bonitas. Na primeira cena, o malandro se faz passar por um pai que acabou de voltar do cemitério, no qual seu filho está enterrado. Entra cabisbaixo numa pracinha e conversa com um garoto com roupa de escoteiro, e explica-lhe que ao vê-lo brincar, se lembra do filho morto, que teria hoje a mesma idade dele. Depois de muita ladainha, o grande filho da puta pede carinhosamente que o acompanhe a um restaurante – e que lhe chame de “pai”. Enfim, (Ramon é o nome dele) come até se empanturrar e a criança também, trocando elogios de “pai” pra “filho”, simulando uma bela relação paternal que faz cair lágrimas dos olhos do garçom. “Vou ali comprar umas revistinhas pro meu filho e já volto, seu garçom”. E não volta nunca mais. No telefone, um tempo depois, diz a sua amiga: “Eu precisava filar um almoço, entende? Tava morrendo de fome” ou algo assim.
Esse é mais ou menos o estilo que atravessa todo o filme, que tem uma imagem péssima, uns atores péssimos, um enredo péssimo e um final péssimo. É um retrocesso na carreira do diretor José Miziara, que um ano antes tinha feito O bem-dotado – O homem de Itu, um ícone do cinema da Boca do Lixo, estrelado pelo próprio Nuno. Em 1982, fez o ótimo Pecado horizontal, uma das coisas mais engraçadas e toscas já realizadas. Mesmo a malícia “inocente” e cafajeste desses filmes dá lugar a um Nuno Leal Maia maligno, mau caráter e aproveitador, e um falso clima de seriedade.
Aliás, outros títulos da filmografia de José Miziara são pérolas sensacionais: Nos tempos da vaselina (1979), Os rapazes da difícil vida fácil (1979) e Como faturar a mulher do próximo (1981). A fixação pela vaselina continua no período de decadência do cinema da Boca e a invasão de filmes de sexo hardcore importados dos EUA com Sem vaselina (1985). Dessa fase pornográfica, há filmes como Rabo I (1985), A quebra-galho sexual (1986) e O Oscar do sexo explícito (1986).
O enredo dessa coisa cinematográfica se concentra nos pulos que Ramon dá pra conseguir dinheiro fácil. O subtítulo do filme é “Troca de casais”. Na ilusão de achar uma velha rica pra sustentar seus luxos, ou, como ele diz em uma certa passagem, para oferecer um “salário” em troca de seu amor, Ramon se junta a uma amiga e se fazem passar por um casal aberto a novas experiências. Imediatamente, colocam anúncios no jornal procurando um casal para fazer swing.
O que é interessante perceber nessa grande porcaria é o seu papel propagandístico. O filme funciona como uma cartilha de introdução e estímulo à prática do swing, como uma forma nova de relação mais social que sexual, símbolo da modernidade e da liberação da década de 70. Há uma cena-chave dessa panfletagem toda a favor da troca de casais que se passa numa boate na qual o “casal” de Ramon encontra um outro casal, encabeçado por um Anselmo Duarte de cabeça branca. A forma como cada um deles enuncia as frases, de forma totalmente decorada, dá a entender aquelas palavras como imperativos direcionados ao espectador. São apresentados dados como “O swing é praticado por mais de não-sei-quantas pessoas nos Estados Unidos” e “Já foi comprovado que a troca de casais aumenta o desejo sexual do casal em tempos de crise”.
Esse aspecto pedagógico e didático das pornochanchadas é explicado a fundo no livro fundamental sobre o cinema brasileiro Boca do lixo – cinema e classes populares, do professor Nuno Cesar Abreu. Em uma passagem sobre os prós e contras do aparecimento dos filmes de sexo explícito e sua influência no mercado de filmes do país, o cineasta Ozualdo Candeias diz, em entrevista:
O sexo explícito, enquanto trazia uma informação erótica, sado-erótica ou o diabo que fosse, existiu. Primeiro, porque até o [aparecimento do] sexo explícito, e esse é um dos valores dele, ninguém sabia bem como fazer, como “trepar”, quem “chupava” ou “dava o rabo”. (…) Quando isso foi mais ou menos liberado, por causa desse cinema, deixou de haver um bocado de gente bloqueada (…)
Embalos alucinantes – a troca de casais é um exemplo em carne e osso desse uso prático do cinema da Boca do Lixo. Ao longo do filme inteiro são feitas considerações sobre o swing, sobre a revolução sexual e os benefícios do prazer como um escapismo, um relaxamento das tensões. No escuro do cinema, o povo aprendia as “novidades” sexuais e como colocá-las em prática. Se a Boca do Lixo foi uma verdadeira universidade para os aspirantes ao mundo do cinema, a pornochanchada foi, exagerando um bocado, uma grosseira aula de educação sexual.
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