“Fora assim que aceitara viver em silêncio, de cabeça baixa, sem ousar pedir coisa alguma. Vegetara nos empregos mais humildes, conhecera destinos diferentes, criaturas transfiguradas pelas dores mais fundas, pelas mais permanentes necessidades - e conhecera também aqueles que a vida cumula de todos os seus favores, que elege como filhos diletos. E não sentira nenhum desprezo pelos primeiros e nem rancor pelos segundos. Transitara livremente entre eles, como se fosse outra a raça a que pertencesse, mais amarga e mais pura. Um dia, porém, alguém lhe fizera ver que mesmo assim a sua presença pesava como uma acusação. Os homens queriam representar livremente os seus papéis e se sentiam perturbados com aquela silenciosa presença, que parecia prestes a desencadear sobre eles uma força inesperada e poderosa.”
“O cinema é, de todas as artes, a mais trabalhosa. Para levá-la a efeito, é preciso o concurso de grande número de pessoas. A harmonia que requer, portanto, é a mais difícil de se obter. Creio que deve vir daí a raridade das autênticas obras-primas da tela. E de onde é possível a alguns imbecis, apoiados em citações de dicionário, afirmarem que o “cinema não é arte”. Arte sim, arte degradada, arte assassinada pela indústria, devido aos fabulosos proventos que engendra, mas ainda assim arte, já que o espírito do homem consegue se transmitir através dela com tão grandiosa intensidade. Um filme é um mundo que se recria, e para realizá-lo é preciso que se obedeça a leis, códigos e princípios que regem um universo autônomo. Ao contrário do romance, não são leis e códigos de ordem subjetiva – leis e códigos desta natureza, surgem mais ou menos harmônicos e equilibrados depois da obra levada a termo – e sim imperativos da ordem imediata, princípios de uma realidade tangível, objetiva, agressiva como um rocha cheia de arestas.”
