(via wordpainting)
“Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se. Fico tentando relembrar uma série de coisas. Se não tivesse jogado as tampinhas fora, por exemplo, a frase da minha tia talvez hoje fizesse algum sentido para mim. Para a sua coleção, Ricardo.”
‘Não tenha filhos’ e outras dicas de escritores para escritores
- Carlos Drummond de Andrade @Michel Laub
- John Steinbeck @The Paris Review
- Kurt Vonnegut @LifeHacker
- Jack Kerouac @Literary Lovers
- George Orwell @Pick the Brain
- Henry Miller @Lists of Note
- S. S. Van Dine, Ronald Knox, Raymond Chandler e Frank Armer @Lists of Note
- Elmore Leonard, Diana Athill, Margaret Atwood, Roddy Doyle, Helen Dunmore, Geoff Dyer, Anne Enright, Richard Ford, Jonathan Franzen, Esther Freud, Neil Gaiman, David Hare, PD James e AL Kennedy @The Guardian
- Hilary Mantel, Michael Moorcock, Michael Morpurgo, Andrew Motion, Joyce Carol Oates, Annie Proulx, Philip Pullman, Ian Rankin, Will Self, Helen Simpson, Zadie Smith, Colm Tóibín, Rose Tremain, Sarah Waters e Jeanette Winterson @The Guardian
Nabokov’s “Invitation to a Beheading”
“Como diabos pode um homem gostar de ser acordado às 6h30 da manhã por um despertador, sair da calma, vestir-se, alimentar-se à força, cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego para chegar a um lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro os bolsos de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber essa oportunidade?”
“Tenho medo da solidão. Visite um manicômio ou uma fábrica, entre num ônibus ou num café. Em toda parte as pessoas vivem na mais completa solidão. Tremo de pensar em todas as vozes que se erguem solitárias, anzóis aspirando ao céu como numa loteria. E os corpos envelhecendo, corações começando a falhar como velhas sanfonas, problemas renais, esfíncteres frouxos como elásticos velhos. Está acontecendo conosco, com você debaixo das listras verdes. Faz com que eu queira pegar sua mão. E este é o milagre pelo qual todas as jukeboxes devoram moedas. Que possamos protestar contra esse massacre indiferente. Pegar sua mão é um protesto muito bom. Queria que estivesse ao meu lado agora.”
“D. Maria José não tinha discernimento. Era melhor que se arrumasse com o Monteiro, que é velho, capitalista e viúvo, homem respeitável. Depois mudei de ideia. Procedia ela muito bem, se o italiano a fazia feliz. E o Pinheiro também andava com juízo em correr atrás da cabocla. Punham a sua felicidade onde podiam alcançá-la. Eu não podia alcançar a minha felicidade: fugira na véspera, sem voltar o rosto.”
Se um de nós dois morrer, me mudo para Paris

A literatura é uma doença que ataca vários tipos de leitores — leigos, estudiosos, profissionais, aposentados, cegos — e até mesmo escritores bissextos, como Paulo Roberto Pires, que, contagiado pelos livros do colega Enrique Vila-Matas, que só escreve livros sobre escritores e sobre o mal que os ataca e os impele para o abismo, escreveu um sobre um escritor que tieta o escritor catalão Enrique Vila-Matas.
Se um de nós dois morrer (Alfaguara, 2011) esgota as citações de nomes do mundo literário, musical e cinematográfico: Enrique Vila-Matas aparece 37 vezes. Em seguida, aparecem Walter Benjamin (13 vezes),Samuel Beckett (6), Fernando Pessoa (5), Franz Kafka (4), Julio Cortázar (4), Serge Gainsbourg (4), Carlos Sussekind (3), Elizabeth Bishop (3), Jean-Paul Sartre (3), Machado de Assis (3), Marguerite Duras (3), Adrien Borel (2), Dashiell Hammett (2), David Markson (2), Dorothy Parker (2), Ernesto Nazareth (2), Francis Bacon (2), Georges Bataille (2), Georges Perec (2), Giorgio Agamben (2), Italo Svevo (2), James Joyce (2), Joan Didion (2), Keith Jarrett (2), Man Ray (2), Michel Leiris (2), Nathanael West (2), Nelson Rodrigues (2), Paul Auster (2), Rodrigo Lacerda (2), Silviano Santiago (2), Sophie Calle (2), Truman Capote (2), William Faulkner (2), Alan Schneider, Alberto Giacommetti, Alejo Carpentier, Antônio Fraga, Antônio Maria, Antonio Tabucchi, Arnaldo Jabor, Beatriz Sarlo, Brito Broca, Chaim Soutine, Carl Solomon, Carlos Drummond de Andrade, Carmen Miranda, Charles Baudelaire, Chico Buarque, Cole Porter, Edgard Allan Poe, Emmanuel Bove, Ernest Hemingway, Eugene Ionesco, Eugene O’Neill, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, Fernando Sabino, Fiódor Dostoiévski, François Truffaut, Friedrich Nietzsche, Gloria Estefan, Gonçalo M. Tavares, Guimarães Passos, Gustave Flaubert, Harper Lee, Henri Langlois, Henry Roth, Igor Stravinsky, Isaac Asimov, Ivan Turguêniev, J. D. Salinger, J. S. Bach, Jacques Lacan, Jay Parini, Jayme Ovalle, Jean Rhys, João Antônio, João Guimarães Rosa, John Steinbeck, José María Arguedas, José Saramago, Joseph Brodsky, Joseph Mitchell, Jules e Edmond de Gouncourt, Laurence Sterne, Leonid Tsípkin, Lillian Helman, Luis Sepúlveda, Luiz Eduardo Soares, Maiakóvski, Manuel Bandeira, Manuel Vázquez Montalbán, Marcel Duchamp, Marguerite Yourcenar, Mário de Andrade, Maura Lopes Cançado, Maurice Nadeau, Milton Hatoum, MV Bill, Nat King Cole, Nikos Kazantzákis, Paul Celan, Primo Levi, Raduan Nassar, Ricardo Cano Gaviria, Roland Barthes, Rubem Fonseca, Salman Rushdie, Simone de Beauvoir, Sinclair Lewis, Siri Hustvedt, Sócrates, Susan Sontag, Torquato Neto, Tristan Tzara, Vinicius de Moraes, W. G. Sebald e Walter Campos de Carvalho.
E as obras: O mal de Montano (citada 8 vezes), Austerlitz (2), Bartleby e companhia (2), El zorro de arriba y el zorro de abajo (2), Esperando Godot (2), O inominável (2), Pátria minha (2), The Melody at Night, With You (2), Tristão e Isolda (2), Variações Goldberg (2), A amante de Wittgenstein, A interpretação dos sonhos, A lua vem da Ásia, A paixão pelos livros, A sangue frio, A travessia de Benjamin, Abandono, de Théo A. (fictício), Amor que serena, termina?, Answered Prayers,Armadilha para Lamartine, Autobiografia de todo mundo, Brooklyn Follies, Cidade de vidro, Claro enigma, Desabrigo, Dois irmãos, É isto um homem?, Ecce Homo, Em busca do tempo perdido, Fazes-me falta, História abreviada da literatura portátil, História do olho,L’Hotel, Les Mots, Lord Jim, Malone Morre,Manuelzão e Miguilim,Memorial de Aires, Molloy, Não diga noite, O amante, O apanhador no campo de centeio, O conserto na casca do ovo (projeto de Campos de Carvalho), O dia do gafanhoto, O falcão maltês, O púcaro búlgaro, O segredo de Joe Gould, Olvidar a Benjamin, Ombros altos, Paris não tem fim, Primeiro amor, Tentativas de esgotar um lugar parisiense,The Crack-up,To Kill a Mockingbird (O sol é para todos), Tratado geral das vocações interrompidas de Roberto W. (fictício),Tristram Shandy, Ulisses, Um copo de cólera,Um homem célebre,Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Verão em Baden-Baden, Vita nova (projeto de Barthes) e Wide Sargasso Sea.
Enrique Vila-Matas, cepa original da doença, faz o mesmo em seus livros, e afirma que seus leitores não se sentem incomodados com a torrente de referências eruditas. “Totalmente o contrário. Muitos deles me agradecem por tratá-los como seres cultos e inteligentes”, disse, em entrevista concedida a Livia Deorsola quando do lançamento do livro Paris não tem fim, em 2007.
Também não acaba nunca a exigência monstruosa dos olhos leitores. Já não bastam o acúmulo de referências, o inventário de dados e a meta-metalinguagem. Surgem então variações, como a de Antônio Xerxenesky, que em A página assombrada por fantasmas (Rocco, 2011) tenta traçar o impacto que a palavra escrita tem na vida das pessoas comuns. Cada um dos nove contos brinca com uma possibilidade literária, um deles, inclusive, com o texto (literário) de um jogo de videogame.
Jorge Luis Borges, Javier Marías, Alan Pauls e Miguel de Cervantes são as referências principais. O primeiro — e mais interessante — conto da coletânea mostra o tiete imaginando o encontro com seu escritor preferido enquanto o elevador sobe até o apartamento dele: excêntrico, abominável, sarcástico, misantropo? Passamos tanto tempo fora da realidade lendo suas obras que acabamos nos esquecendo que os escritores são pessoas comuns, que também dão bom-dia e boa-noite.
Nos esquecemos também de lembrar que tudo já foi dito e que há aqueles que só conseguem se expressar com as palavras dos outros.
“A doença é uma convicção, e eu nasci com essa convicção. Não me lembraria da que contraí aos vinte anos se não a tivesse naquela época relatado a um médico. Curioso como recordamos melhor as palavras ditas que os sentimentos que não chegaram a repercutir no ar.”
Quadros milaneses
Talvez reparasse que ela se mostrava sobrinha particularmente afetuosa em relação ao tio Antenore, ficava continuamente prestando atenção no que ele dizia, sorria com suas melhores piadas, ainda que um tanto hipopotâmicas, olhava amiúde para ele, como a antecipar um sinal daquele Júpiter-em-família transbordante precordial ambrosia politecnical. (“Claudio desaprende a viver”, in A Adalgisa - quadros milaneses, trad. Mario Fondelli)
Então tá bom, né, Carlo Emilio Gadda!

