vai embora, nuvem

Senator Hawkins vs. Mr. Zappa (19/09/1985)

Senator HAWKINS:
Mr. Zappa, you say you have four children?

Mr. ZAPPA:
Yes, four children.

Senator HAWKINS:
Have you ever purchased toys for those children?

Mr. ZAPPA:
No; my wife does.

Senator HAWKINS:
Well, I might tell you that if you were to go in a toy store -- which is very educational for fathers, by the way; it is not a maternal responsibility to buy toys for children -- that you may look on the box and the box says, this is suitable for 5 to 7 years of age, or 8 to 15, or 15 and above, to give you some guidance for a toy for a child. Do you object to that?

Mr. ZAPPA:
In a way I do, because that means that somebody in an office someplace is making a decision about how smart my child is.

Senator HAWKINS:
I would be interested to see what toys your kids ever had.

Mr. ZAPPA:
Why would you be interested?

Senator HAWKINS:
Just as a point of interest.

Mr. ZAPPA:
Well, come on over to the house. I will show them to you.

No inverno, sem meias

Aracy sentiu que tinha estragado tudo quando Noel a convidou para uma cerveja marca Cascatinha na Taberna da Glória. As palavras que ele empregou para elogiar sua voz deixaram transparecer a Aracy o fracasso de sua primeira apresentação “séria”, justamente aquela que para ela poderia ser o primeiro passo para uma carreira que a levasse para longe dos shows de graça em festinhas, no candomblé da rua Borja Reis, na escola de samba Somos de Pouco Falar, no coro de igreja protestante no Méier.

Minutos antes da primeira cerveja, Aracy ensaiara uma marcha na Rádio Educadora do Brasil. Estavam em 1933, e, para consolar o medo do fracasso de que padecia aquela que se tornaria a maior intérprete de seus sambas, Noel presenteou-a. Com um porre. Na Taberna da Glória, entre seus pares: os malandros Saturnino, Brancura, Zeca Meia-Noite, entre outros.

Nesse mesmo ano foi composto um dos maiores sucessos de Noel Rosa, “Três apitos”, gravado pela primeira vez 18 anos depois por Aracy de Almeida, em que ele narra o aborrecimento de um namorado ignorado.

Quando se exibe com seu carro em frente à fábrica, onde vai buscá-la após o expediente, ela prefere não ouvir a buzina. Ela também o despreza, está zangada, faz pouco caso dele; prefere aguentar a amolação de um gerente que lhe dá ordens a olhá-lo diretamente nos olhos.

Noel só insiste porque sabe que essa indiferença não é verdadeira: ela está tão incomodada com o rompimento que se martiriza indo trabalhar sem meias e agasalho, no inverno. Está desnorteada, e nem os três apitos que assinalam o fim do expediente parecem colocá-la no prumo de seus sentimentos.

A canção foi feita inspirada em uma namorada do compositor, Josefina, a Fina. Noel inicialmente pensava que sua amada trabalhava em uma fábrica de tecidos — como diz a letra —, mas Fina era funcionária em uma fábrica de botões.

Ele decidiu mentir; só assim seria possível chegar na rima “Mas você não sabe/ Que enquanto você faz pano/ Faço junto ao piano/ Esses versos pra você”.

No entanto, também seria possível se ele dissesse a verdade sabida e consabida: “Mas você não sabe/ Que enquanto você faz botão/ Faço junto ao violão/ Esses versos pra você”.

Noel gratificou Aracy de Almeida com um alegre porre por ter cantado tão bem em sua estreia, e Fina com versos sinceros de coração, mas carentes de realidade, por ter dificultado a realização de seu amor, que não sabemos como acabou ou mesmo se realmente começou.

Bem agasalhado com seu terno de flanela, no entanto, ele sempre esteve.

Sete cenas de Taiguara

Primeira cena: nascer

Um disco arranjado por Hermeto Pascoal, com participação de Toninho Horta, Paulo Braga, alguns Morelenbaums, Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso e Novelli não pode ser ruim. IMYRA, TAYRA, IPY, TAIGUARA, lançado em 1976 pela Odeon, foi recolhido (alguns dizem “sequestrado”) das lojas dois dias após o lançamento, sendo editado novamente só 25 anos depois. No Japão.

Baixe o disco no Um Que Tenha

Segunda cena: crescer

Nascido Taiguara Chalar da Silva, em 1945, em Montevidéu, Taiguara mudou-se aos quatro anos para o Rio com o pai, o bandoneonista Ubirajara. Até sua morte, compôs sambas, baladas, guarânias e outros ritmos internacionais. Seus dois últimos discos foram dedicados, respectivamente, à canção latina e à música africana - na capa de IMYRA, o rosto do compositor é um mosaico de raízes.

Terceira cena: saber

Aprendeu arranjo com Luiz Eça, do Sambalanço Trio, conjunto em que pela primeira vez cantou profissionalmente depois que abandonou o curso de Direito. Hermeto Pascoal veio depois, como mentor musical. O disco de Milton Nascimento, MINAS, lançado um ano antes, deve ter servido de inspiração para o IMYRA: não à toa Taiguara canta “Três Pontas”, do início da carreira de Milton, no disco “sequestrado”, única letra que não assina no disco.

Quarta cena: mostrar

Do disco de estreia a IMYRA, foram cinco discos. Taiguara ficou famoso pelos festivais: venceu em 1968 o Brasil Canta com “Modinha”, de Sérgio Bittencourt, e o 2º Festival da Música Popular Brasileira com “Helena, Helena, Helena”, de Alberto Land. Outros sucessos fizeram a cabeça de boa parte da geração de 70: “Universo no Teu Corpo”, “Que as Crianças Cantem Livres” e “Viagem”.

Quinta cena: sofrer

Autoexilou-se em Londres, após ser perseguido no Brasil em pleno regime militar. Suas letras falavam em liberdade, em unidade latino-americana, em insubordinação, em amor fraterno. Também viveu na Etiópia, na França e na Tanzânia, até voltar ao País e confeccionar IMYRA

Sexta cena: esperar

Um câncer de bexiga o mata em 1996, interrompendo a produção de um novo disco só com sambas cariocas.

Sétima cena: um saci

Taiguara, em tupi-guarani, significa “senhor de si”.

Dois autorretratos musicados por Jards Macalé

1.
Dente no dente

(Torquato Neto)

Sim, não
Mas pode ser que seja de repente
A minha frente, bem na tua frente
Tudo muito rente, quente
Sente o drama
É tudo ser assim tão envolvente amor
É tudo ser assim tão de repente tente agora
Olho no olho, dente no dente
Lentamente, é nesse hora a hora
Que eu desejo o fim do fim de tudo
É no começo, e o sol poente
A coisa fria e o fogo novamente
E tudo não mais que de repente
Quente, quente, quente
Sente.


2.
Olho de lince
(Waly Salomão)

Quem fala que sou esquisito hermético
É porque não dou sopa estou sempre elétrico
Nada que se aproxima nada me é estranho
Fulano sicrano e beltrano
Seja pedra seja planta seja bicho seja humano
Quando quero saber o que ocorre a minha volta
Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
Experimento tudo nunca me iludo
Quero crer no que vem por ao beco escuro
Me iludo passando presente futuro
Revir na palma da mão o dado
Presente futuro passado
Tudo sentir de todas as maneiras
É a chave de ouro do meu jogo
De minha mais alta razão
Na seqüência de diferentes naipes
Quem fala de mim tem paixão.

Música de cristal

Quem já assistiu qualquer filme da época de ouro da filmografia de Werner Herzog — Aguirre (1972), Coração de cristal (1976), Nosferatu (1979), Fitzcarraldo (1982) ou Cobra Verde (1987) — foi obrigado a ouvir trilhas sonoras que se fundem perfeitamente com a megalomania visual do diretor alemão. Quem pensaria em fazer um remake do filme de vampiro mais simbólico da história do cinema e compor uma trilha que mistura mantras hindus e canto gregoriano? O Popol Vuh, cujo líder Florian Fricke, precursor do uso do sintetizador Moog (e, portanto, da música eletrônica), morreu em 2001.





O som do Popol Vuh é quase uma entrega espiritual; é calunioso rotulá-lo como Krautrock, gênero frequentemente atribuído a bandas alemãs como Can, Faust e Neu!. Para tirar a dúvida, é só escutar até o fim esse tema de Aguirre:





O caráter religioso da música de Fricke não conseguiu se esquivar, mais tarde, de outro rótulo —- new age. Nesse artigo de Robert Phoenix, “Popol Vuh: Not Of This World”, o autor compara Fricke a Wagner e Strauss. Já nesse link do Rate Your Music é possível saber mais sobre a discografia do grupo e ver alguns vídeos interessantes.